Esta obra de Allen Jones integra as pesquisas formais e plásticas sobre a representação que desenvolveu a partir da sua prática docente. Partindo de um dado motivo, o seu trabalho do início dos anos 60 desenrola-se em séries onde explora temas como a representação do movimento, a conjugação das cores e a eficácia da imagem. Logo na primeira série sobre os autocarros londrinos, iniciada em 1962, começa a utilizar formatos irregulares, tal como acontece em Parachutist No. 2 [Paraquedista N.º 2]. Com isto, buscava reconduzir o quadro à sua materialidade, eliminando quaisquer sugestões de um espaço virtual além da tela. Não abdicava, contudo, da figuração de referências à realidade. Estes trabalhos são assim “imagens-objetos”, construídos a partir de um equilíbrio incerto entre representação e materialidade, forma e cor.

Allen Jones, Parachutist No. 2, 1963

Parachutist No. 2 é composta por uma tela heptagonal e outra quadrangular, cuja justaposição lembra formalmente o paraquedas referido no título. Mas a parte superior sugere também um vórtice a que o vermelho, que emana do centro em contraste com os verdes e azuis, dá uma sugestão de violência. É tentador ver aqui – e no próprio título – uma referência à Guerra do Vietname, conflito que então se intensificava. No entanto, não é um soldado que se entrevê através da faixa de nuvens verdes e azuis na tela inferior. São dois corpos entrelaçados, imagem utilizada nestes anos com frequência por Allen Jones. Trata-se, na realidade, de uma representação híbrida, fusão de um homem e uma mulher somente identificadas através de traços genéricos (fato, pernas, sapatos, chapéu), que surge a partir de uma frase de Assim falava Zaratustra, de Friedrich Nietzsche: “Eis como quero o homem e a mulher: um, apto para a guerra, a outra, apta para dar à luz; mas os dois aptos para dançar com cabeças e pernas.” Este híbrido, capaz de dançar com a cabeça e as pernas, é também representado noutra obra de 1963 pertencente à coleção do CAM, cujo título—“Dance with the Head and the Legs…"—cita o trecho de Nietzsche.


Texto publicado no site da Fundação Calouste Gulbenkian.