Desenho da série Rastro, de Sara Belo

Acaba de encerrar a exposição de Sara Belo na Galeria Municipal, patente desde 9 de Setembro. A jovem artista, actualmente doutoranda na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, mostrou trabalhos em desenho, dos quais se destacava uma série de oito desenhos de grande formato de vistas do solo, paisagens horizontais de ervas, vagens, folhas, palha, tudo perscrutado de perto e registado com minúcia em grafite e aguadas. Nestes desenhos mil manchas escuras criam uma trama vegetal estranhamente desolada, uma natureza quase sem vida onde por vezes há o rastro da passagem de um corpo ou de um peso. O próprio desenho retrai-se para o fundo da imagem, para as suas sombras e interstícios, deixando primazia para o branco incandescente da folha – como se o excesso de luz tivesse cegado a própria imagem, como se fosse o registo do campo em fim de verão, seco, descolorido, queimado por um sol impiedoso. Enfim, mostra propícia para estes meses de calor sem fim. Havia ainda outra série de desenhos mais pequenos, onde se vislumbravam flores, árvores, insectos, pegadas, sombras humanas, assomando como fantasmas em escuros cenários de uma variedade surpreendente de matizes do negro. A artista conta que utiliza os negros de lápis aguareláveis de diferentes marcas, cada um tem o seu tom próprio e que sob a acção da água por vezes se decompõem em subtis colorações. Fica a ideia de que esta série preparou o caminho para os desenhos de grande formato: por vezes parece que neles se vai adensando o entrelaçado de elementos vegetais para chegar à trama luminosa dos últimos. Para acabar, um parabéns para o catálogo, que traz um bonito texto de Ana Mata.