Resenha de Arte e comunidade (2016)
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Há já um ano ou mais que a volumosa obra Arte e comunidade (Fundação Calouste Gulbenkian, 2016), coordenada por Hugo Cruz, aguardava olhar atento num canto da prateleira. Eis o dia, admitindo desde logo que o que aqui se traz é mais um convite a ler que uma resenha minimamente à altura dos conteúdos do livro, riquíssimo.
Uma forma de apresentar o livro é dizer que a iniciativa é da PELE (<www.apele.org>), estrutura artística portuense dedicada, principalmente, ao teatro em comunidade, que desde a sua criação em 2007 tem realizado um número impressionante de projectos de teatro colectivo nos mais variados contextos. Só refiro em concreto a realização do Encontro Internacional de Arte e Comunidade MEXE, no Porto, este ano na quarta edição, porque inclui um encontro de reflexão sobre práticas artísticas comunitárias onde em Setembro iremos apresentar o PI. Há, claro, muito mais, e parte deste pequeno mundo por detrás da PELE se vislumbra em Arte e comunidade.
No livro, Hugo Cruz, director artístico da PELE, junta uma série de autores com laços mais ou menos forte a este mundo do teatro comunitário nortenho com o intuito de promover e dar visibilidade à reflexão sobre este “diverso e ambíguo campo da Arte e Comunidade”, acompanhando e tentando fazer um ponto de situação da crescente prática neste domínio. Cito: “pretende-se contribuir para a valorização de projectos artísticos de cariz comunitário, promover a visibilidade e intercâmbio de experiências acumuladas nesta área, potenciar a criação de um espaço de reflexão sobre as práticas artísticas comunitárias e cimentar uma abordagem holística e integrada deste campo.”
O ensaio essencial é sem dúvida o que o próprio coordenador assina: “Arte e comunidade: As formas de uma intersecção.” Hugo Cruz propõe um levantamento e discussão de diferentes perspectivas sobre as muitas intersecções entre Arte e Comunidade, como forma de posicionamento teórico e prático e de esclarecimento de dilemas comuns. Se bem que sobretudo virado para o teatro, o ensaio traz muito de útil para a reflexão que está a ser levado a cabo aqui sobre o PI, e espero encontrar oportunidade para discuti-lo mais a fundo no futuro.
Também destaque para o texto seguinte, da autoria do historiador do teatro comunitário Eugène van Erven, que esboça uma história de práticas de arte (e sobretudo teatro) comunitária, indo por um lado para os próprios raízes da criação em rituais pré-históricas e as diversas formas de expressão popular, e por outro para as práticas artísticas radicais dos anos 60 e 70 do século passado (com reminiscências para as primeiras vanguardas). É um texto claríssimo e de boa leitura, recomenda-se.
Os restantes textos (e são muitos!) discutem aspectos mais específicos, como o presente e passado do teatro comunitário argentino, brasileiro e português, reflexões sobre o Teatro do Oprimido e o Freedom Theater (Palestina), e sobre experiências várias, boa parte delas em Portugal, de dança, música e teatro em comunidade.
Enfim, para aqueles a quem algum destes temas chama a atenção, acrescento ainda que é desenhado com garra (foram convidados 9 designers para desenhar os diferentes capítulos, todos com um grafismo e até tipos de papel distintos).
Ao que parece, o livro só se venda na livraria da Gulbenkian, e vale bem os seus 19,00 euros.
Texto originalmente publicado no blog dos voluntários do PI