É uma exposição curiosa, esta da Fundación Suñol, que traça um retrato dessa figura importante mas muitas vezes pouco visível que é o galerista. A actividade de Fernando Vijande (1930–1986) começou em 1971, na galeria Vandrés, em Madrid; em 1981 abre a galeria Vijande, na mesma cidade, a cuja actividade a morte do galerista põe fim. O tempo coincide, portanto, com os tempos da transição da ditadura para a democracia em Espanha e toda a agitação cultural e artística da altura. Da censura à primeira exposição que organizou, “Eros y el arte actual en España,” em 1971, à apoteótica mostra de Andy Warhol, em 1983.

Retrato de Fernando Vijande

A exposição é uma homenagem, que também se deve à amizade entre Vijande e Josep Suñol e a contínua relação de galerista e colecionador.

A exposição segue o trilho das exposições indiviudais realizadas nas duas galerias, totalizando uns cinquenta artistas, muitos dos quais expuseram lá várias vezes. Estão lá nomes como Miró, Muntadas, Sergi Aguiler, Miquel Navarro, Juan Muñoz, e outros talvez mais importantes para este período da arte espanhola mas que a mim, leigo na matéria, não me dizem muito. Também muitos estrangeiros. Destacam-se Robert Mapplethorpe e Andy Warhol, já nos anos 80 (ambos fizeram retratos de Vijande). Logo no início, um elusivo Robert Smith (1944–?), norte-americano que nos anos 70 viveu em Madrid. Artista espanhola para ver com mais atenção: Zush (Alberto Porta y Muñoz), criador de um universo próprio totalmente louco mas muito divertido.

Cada artista está, geralmente, representado com duas obras, uma da altura (exposta numa destas exposições? não é claro) e uma obra recente. Intui-se que a selecção das obras orientou-se por aquilo que estava à mão, provavelmente obras pertencentes à Fundación, ou disponibilidade dos artistas. Haverá – ou pelo menos não há nada a sugerir outra coisa – muito de acidental nesta selecção, ou pelo menos um forte filtro da escolha de obras pelo gosto do colecionador Suñol. Nenhuma intenção de reconstruir aquelas exposições (as fotos a preto-e-branco sugerem tanto quanto deixam de fora, desde logo a cor). Aqui cabe um reparo: para uma exposição desta natureza, tão ligado ao tecido privado do coleccionismo, fazia todo o sentido indicar nas legendas a proveniência das obras.

As obras vão acompanhadas com informação sobre as exposições em causa e material de arquivo: imprensa, alguma correspondência, fotografias … Numa quantidade limitada, o que não torna demasiado pesada a visita, mesmo se no final o cansaço já faz saltar leituras mais demoradas. Há ainda cartazes, catálogos, documentação de alguns momentos marcantes: instalação da nova galeria em 1981, numa antiga garagem; a exposição New Images from Spain, no Guggenheim em 1980, cujos artistas Vijande, importante promotor da internacionalização da cena artística espanhola, representou…

Ao todo, permite múltiplas leituras. Há a política de exposições de Vijande, claro, que foi claramente para as propostas vanguardistas, incluindo arte conceptual, performance, ambientes, mas onde também se desenha aquela lógica estranha do gosto pessoal, ecléctico mas onde intuí (com ou sem razão) uma tendência para universos mais surrealistas, ou um certo gosto pelo absurdo. Há um vislumbre de um tempo e de um ecosistema artístico. Há as confrontações de obras de artistas com 30 ou 40 anos de diferença. Há o vislumbre da crítica da altura, e das diferentes fortunas de exposições – entusiasmo ou silêncio. Há também sugestões de uma cena artística em transformação, com a escultura a marcar mais destaque já nos anos 80, por exemplo (um jovem Muñoz, Navarro, Aguiler). Nada disto é realmente aprofundado, mas, pelo menos para o visitante leigo, aqui está o interesse. A exposição abre inúmeras pistas, que não são percorridas. As justaposições de obras que apenas sugerem percursos pessoais, as inevitáveis comparações que se vão insinuando entre este passado e o nosso presente (o papel das galerias e da crítica, o mercado da arte, a audácia daquela altura), abrem o tempo, criam espaços de anacronia onde as imagens e a arte se dão tão bem. Porque no fundo é uma exposição relativamente modesta, que simplesmente quer homeagear o trabalho de uma figura que marcou um tempo.

Às vezes faz bem ver exposições destas, sem a ambição de refazer a história ou de instaurar cânones, mas simplesmente de abrir trilhos pela floresta do passado.