Ana Hatherly e o barroco na Gulbenkian
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Textos um pouco para o confuso sobre as duas exposições de Ana Hatherly actualmente em Lisboa de Joana Consiglieri na ArteCapital: “Ana Hatherly e o barroco. Num jardim feito de tinta”, na Gulbenkian e “Ana Hatherly. Território anagramático”, na Fundação Carmona e Costa.
Fui ver a exposição na Gulbenkian, que se assume como “exposição-ensaio”, propondo confrontar a obra de Ana Hatherly com a sua leitura (enquanto acadêmica e artista) do barroco. Estava com bastante expectativas, por já ter escrito sobre um artista (Perejaume) que se confrontou com o barroco (neste caso catalão), na Rẹ·Vis·Ta, e interessava-me ver até que ponto se podia pôr as duas exposições em diálogo. A verdade é que me desilidiu, não porque a exposição estivesse má, mas porque, nesta exposição, não consegui entrar nem na obra de Hatherly nem na concepção do barroco tal como estavam expostas. Parecia-me – é um ponto de vista pessoal e, para mais, de um leigo que não aprofundou o tema de forma nenhuma – um barroco excessivamente cerebral, todo palavras, que – até aí eu chego – é uma parte do barroco mas que, no entanto, me parece sempre vir acompanhada também do movimento inverso. Este é aliás o grande motivo da leitura do barroco pelo Perejaume. O barroco de Hatherly parecia-me essencialmente culto, decifração para entendidos, passatempo no fundo inócuo onde morte ou violência não são mais que palavras. (E aqui vem-me a memória o livro de Walter Benjamin sobre o Trauerspiel alemão.)
Para contraste um trecho sobre o barroco segundo Perejaume, do meu texto na Re·Vis·Ta:
Mais do que um simples recurso formal, a formal oval está, para Perejaume, presente na extrema bipolaridade com que o barroco acomoda qualquer dicotomia à mão, encaixada e extremada sem cessar. “Só a mais composta das formas é capaz de delinear o novelo de engano/desengano que o barroco apresenta.” O solene e o humor, o luxo e a putrefacção, a beleza e a degradação, o quotidiano e o sagrado, o real e o ilusório, a sinceridade e a efabulação… Abundam no barroco as duplas centralidades, caracteres e naturezas, as excentricidades, hipérboles, contrastes, paradoxos, demonstrações de engenho, desdobramentos e anamorfoses. Há uma torção exasperada e prolífera de todo o sentido que materiais, imagens e signos possam dar a entender.
Seguramente que procurei na exposição o que não era para lá estar. E como não consigo decifrar a letra de Ana Hatherly e o hermético (de anagramas e o resto) tem esta tendência a ser, precisamente, hermético, pouco acessível, fechado, acabei por aborrecer-me com a dificuldade de leitura. A dificuldade é uma que no texto referido Joana Consiglieri também parece sentir, concluindo daí contudo que se trata de pensamento erudito, para cuja fruição remete para explicações do curador. Eu, por mim, até embirrei com o tom e os rodeios acadêmicos das páginas de textos científicos que a artista-investigadora publicou e que lá estavam nos vitrines.
Continuo, contudo, com expectativas de ser surpreendida pela exposição na Fundação Carmona e Costa. Tenho a sensação que, pelo menos para mim, a obra de Ana Hatherly se serve melhor sem o barroco.