A Iconologia segundo Hans Belting
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Recensão de “Image, Medium, Body: A New Approach to Iconology,” in Critical Inquiry 31 (Winter 2005).
Neste artigo, o autor parte de insuficiências das teorias da imagem existentes, por não atenderem à relação íntima entre imagem mental e física e a interacção entre elas; por isso, conclui a necessidade de uma concepção global e operativa da imagem, válida tanto para o presente como o passado, que parte de uma abordagem que define como antropológica e cujo centro é a prática das imagens, a sua actualização através da utilização pelo espectador. Esta visão leva-o a incluir os dois ‘determinantes não-icónicos’ do título – o médium e o corpo – que considera essenciais para atender à totalidade dos significados e fins das imagens, destacando aspectos como a política das imagens e o imaginário colectivo.
Há, então, duas premissas importantes:
- A imagem é entendida como a relação entre o artefacto físico e a imagem mental percepcionada, ou seja e como veremos, a relação que se estabelece entre corpo e médium. Considera a separação ou dissolução da ‘simbiose’ de facto entre estes dois lados da imagem, enquanto instrumento conceptual próprio de uma percepção analítica, como um fenómeno histórico e culturalmente enquadrado.1
- Como tal, o sistema de circulação das imagens constitui-se sobre os três ‘pilares’ do título, sistema em que as imagens ocorrem, têm lugar; pressupondo ainda a constância do respectivo lugar que cada elemento ocupa, por mais que cada elemento em si se transforma. Isto é essencial para a possibilidade de uma história contínua das imagens.2
O médium – o corpo das imagens. No estudo dos meios e dos fins das imagens, o médium está mais claramente ligado ao meio, sendo aquilo que permite a sua mediação ou transmissão. Este carácter intermediário do médium implica que não se deve confundir a medialidade ou corporalidade da imagem com a sua materialidade; é a forma ou o modo de a imagem se manifestar, ou, por outras palavras, a transmissão da forma como a imagem é percepcionada. Da mesma maneira, se o instrumento que dá corpo à imagem é a técnica, não se deve entender esta só como tecnologia visual, pois usa igualmente técnicas simbólicas (técnicas políticas ou de controlo, técnicas da memória). Na economia de atenção, as estratégias de transmissão passam pelo processo comum da ‘absorção’ da imagem desencorporalizando-a do médium e recuperando-a como imagem mental; a atenção aos média permite, porém, o reconhecimento da forma como o médium controla a percepção da imagem. Tal é um procedimento, de resto, comum no estudo de obras de arte, por exemplo na análise da composição de uma imagem ou das relações entre imagem e texto. Tendo esboçado este funcionamento do médium, o autor sublinha que é preciso ter em conta que os média todavia não produzem as imagens; eles transmitam-nas.
O corpo. A importância do médium e das estratégias de transmissão imagética, que começa pela própria forma como canaliza o nosso aparelho perceptivo a reconhecer uma imagem como tal, reside justamente naquilo que visa, o corpo. O corpo é, ele próprio, médium em que se manifestam imagens (da memória, dos sonhos), mas é-o de forma performativo, dotado de um sistema de percepção e de memória, isto é, da capacidade de produzir e reproduzir imagens a partir de experiências e significados pessoais. Existe, segundo o autor, um desejo de exteriorizar a imagem que antecede a invenção dos corpos técnicos que as transmitem para fora do corpo. Por outras palavras, o corpo da imagem (o médium) é um substituto do nosso corpo. Tal desejo terá surgido primeiro, ao que tudo indica, como desejo de substituir o corpo morto, a ausência de um membro da comunidade que é compensada, através de uma ‘troca simbólica’ por uma corpo artificial que o representa numa imagem. A presença corporal torna-se presença icónica.
Se a substituição do corpo morto pela imagem viva constitui a base da invenção dos média, podemos dizer que as imagens têm, por natureza, vida – o autor define a animação como modo perceptivo específico, do tipo simbólico, das imagens. Vemos as imagens como se fossem corpos, atitude longe de arcaica, como a experiência cinematográfica mostra. A animação, neste sentido, pode ser entendida como a projecção da nossa vida na imagem, os média visuais como ‘próteses do corpo’. Se, no triângulo dos termos elementares, o corpo é o elemento historicamente mais constante, a sua concepção, auto-percepção e auto-representação (a imagem básica que cada um performa de si) são das mais voláteis.3 Os média e as imagens que circulam em determinado contexto dão forma, produzem, a imagem do corpo, num processo em que este não é mero sujeito mas actor activo. Por outras palavras, não se trata só da percepção imaginativa do médium que ‘imprimiria’ a imagem na mente, mas de um processo de negociação e mediação das imagens entre corpo e média. A capacidade do corpo de produzir e reproduzir imagens faz com que também seja a base da resistência contra as políticas da imagem e do imaginário, que funcionam através do controlo técnico dos média e dos processos de transmissão. Se estes são controlados por processos políticos, o corpo, por sua vez, é dotado de instrumentos de resistência próprios – projecção, memória, atenção, esquecimento.
Violência. A partir da problemática do iconoclasmo, o autor define que a violência é inerente a este sistema de circulação das imagens. Este funda-se sobre a violência, em primeiro lugar pela troca originária do corpo morto pela imagem. Por outro lado, o autor define o processo de negociação das imagens entre corpos e média como um dos aspectos centrais da sua abordagem, e dá considerável importância ao papel das políticas de controlo e à resistência – formas de violência sobre os média através do condicionamento da visibilidade de umas imagens, a imposição de outras, e como tal visando o controlo (da percepção) do corpo; além do iconoclasmo propriamente dito, enquanto libertação simbólica de certas imagens pela destruição dos média que lhes dão corpo, ou, forma de violência iconoclasta intelectualizada, pela negação da ‘vida’ das imagens, denunciadas como mera matéria morta.
Qual é, então, a Iconologia proposta por Belting? O autor propõe que se baseie a abordagem das imagens sobre a contínua e íntima interacção entre três elementos – corpo, médium, imagem – por mais que cada um se transforme. O estudo deve, portanto, incidir sobre o sistema de circulação das imagens. As características a que este estudo obedece serão os seguintes:
- A não linearidade e a lógica não evolutiva desta sequência da imaginação colectiva; e a inércia e a natureza nomádica das imagens, inerentemente anacrónicas e repetitivas.4
- A substituição do conceito de comunicação pelo de transmissão (ligado ao primeiro ponto) – a relação entre representação e percepção é longe de linear ou automática, existindo inclusive a possibilidade de se oporem.
- A representação confere a natureza paradoxal da presença icónica das imagens, por viverem da ausência do corpo, ausência manifestada ou tornada visível na imagem. O paradoxo é o da visibilidade como indicador da presença que a imagem subverte.
- Por isso, o conceito de política das imagens, que é, mais do que mera exploração dos média, o exercício de poder e controlo da circulação das imagens; o foco deverá estar na interacção entre representação e percepção e no uso político da ‘energia simbólica’ que estes dois conceitos contêm.
- A importância do corpo, arquétipo dos média visual, e o seu papel na prática das imagens, nos processos de negociação e transmissão.
Por fim, salienta-se a recusa do papel meramente imitador do mundo que a imagem teria. Julgo que se pode dizer sinteticamente que, para Belting, a representação do ausente constitui a força ou o poder das imagens, que provocam a tentativa de controlo, e assim de capitalização desta energia simbólica, dos meios que as transmitem, e que este campo de circulação, com os seus vários actores, deverá constituir o ponto de partida para estudar a imagem.
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Encontra-se aqui, a meu ver, o único ponto de contacto real que se estabelece com a obra Iconology – Image, Text, Ideology de W.J.T. Mitchell (Chicago: The University of Chicago Press, 1986), a que Belting aparenta responder. A obra de Mitchell situa-se, porém, a um nível inteiramente diferente – o da análise do discurso sobre a imagem – que as ideias aqui esboçadas. ↩︎
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Belting nega, portanto, a existência de uma ruptura na época contemporânea, decorrente, por exemplo, da problemática do digital. ↩︎
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José Gil definiu isto como o ‘grau-zero’ do corpo. ↩︎
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Conclusão legitimada, curiosamente, por estudos de persistências e permanências de imagens por historiadores da arte como Panofsky ou Warburg. ↩︎