Um dos mais acessíveis relatos sobre as transformações contemporâneas do espaço público é El nuevo espacio público (2006), do filósofo espanhol Daniel Innerarity (há uma tradução portuguesa de Manuel Ruas, O novo espaço público, Teorema, 2010). O seu interesse principal consiste no carácter exaustivo mas sintético com que mapeia todas as grandes questões com que o entendimento do espaço público hoje se debate. Este livro retomou e aprofundou um capítulo, intitulado “Os novos espaços públicos”, de La sociedad invisible (2004, igualmente com tradução de M. Ruas, A sociedade invisível, Teorema, 2009). Sintetizo aqui os pontos principais deste capítulo.


A noção de espaço, e o carácter espacial da configuração social, ganharam de novo pertinência na análise social. Basta referir que globalização é uma noção espacial. Esta presença de termos espaciais evidencia, sobretudo, a dificuldade em saber o que é o espaço hoje. Já não pode ser considerado como o clássico contentor, estável e passivo, dos nossos actos, o território e os lugares dados de antemão. É hoje claro que o espaço resulta de um processo social que o constitui, que é um conceito mais social que geográfico. É um artifício produzido pelo homem: a acção precede ao espaço.

Esta visibilidade do espaço vai acompanhado, paradoxalmente, da sua crescente invisibilidade; daí as várias alegações do seu desaparecimento. É difícil vê-lo, de apreender a mudança de significação na relação entre espaço e sociedade. Daí a necessidade de uma cartografia – de (in)certezas, orientações, dúvidas. O espaço é hoje essencialmente polissémico, e há uma série de factores – os circuitos financeiros, as trocas comerciais, a difusão audio-visual, a migração das pessoas, as solidariedades extra-nacionais… – que pressionam a frágil cartografia do mundo. O autor propõe quatro abordagens para pensar as novas noções de espaço que resultam deste processo.

I. A virtualização do espaço

Se o espaço teve sempre significados políticos diversos, hoje o espaço político é algo especialmente incerto. A estabilidade do espaço como território delimitado fundara a ordem política moderna; era suporte, base, objecto e instrumento essencial para a constituição de uma comunidade política como Estado (pelo monopólio de poder) e nação (pela inter-solidariedade territorial). No entanto, o espaço nacional parece estar a perder o seu carácter de referência em detrimento de uma territorialidade difusa, ambígua e versátil, frequentemente supra ou infra-nacional, pondo em causa o princípio da soberania estatal. Por isso, o território já não pode ser considerado como eixo de uma ordem internacional; o cenário define-se actualmente por outros modos de regionalização, redes extra-territoriais, co-responsabilidades, sobreposição de vários espaços. Por isso, Innerarity defende tomar em conta a pluralidade dos modos de territorialidade.A política deve recolher as experiências de um espaço plural e dinâmico, e de uma pluralidade de espaços, já ensaiadas pela matemática não-euclidiana, a maciça contemplação das imagens dos espaços não unitários da arte abstracta, os processos de globalização, as modernas técnicas informáticas ou a mobilidade geral.

II. Lugares débeis

O território fora sempre recurso principal, cuja gestão estava na base do exercício do poder. Este sentido de substrato material perdeu relevância. A relativização ou anulação da distância ou a rejeição de localizações fixas e estáveis tendem a dissolver o espaço, enquanto o tempo contrai por efeito da simultaneidade. É o que Zygmunt Bauman chamou um processo de liquidificação, o que implica que as coisas perdem a solidez da sua forma, ligada ao lugar que ocupam no espaço. O espaço liquidificado já não é obstáculo para a acção, a distância perde o seu significado estratégico, o lugar privilegiado deixa de existir, o comum já não se vincula a um lugar. Isto, no entanto, não implica necessariamente a destruição do lugar ou do local, mas a necessidade de concebê-lo como sistema aberto, lugar de vizinhança. Implica uma multiplicidade de vínculos.

III. A sociedade enredada

“A geografia humana é a ciência do que nós, homens, somos sem ter entrado em acordos, sem disfarces, reservas ou intrigas…” (p. 116) A cartografia pode ser entendida como autobiografia colectiva e involuntária, a escrita da organiza o espaço. É um rasto que assinala a passagem pelo mundo. O que, da cartografia actual, se torna claro, é a tendência para o desaparecimento dos centros e a formação das redes, organizadas a partir de relações múltiplas e variáveis. O centro é aquele ponto de encontro de todos os desvios, a encruzilhada dos atalhos. A densificação das redes implica, no entanto, a criação de vínculos sem centralidade, a perda do papel intermediário e consequente do privilégio do centro. Onde isto actualmente mais se nota é no desaparecimento da cidade e na expansão do urbano. A cidade já não se opõe ao campo, mas sim ao urbano. A cidade perde também, por isso, o seu carácter representativo; a representatividade política passa pelo território virtual das redes de comunicação. É sintoma de toda uma distribuição de oposições e fronteiras que geravam a hierarquia social em desaparecimento – o próximo e o afastado, o sublime e o corrente, o enfático e o simples, o antigo e o novo. Já não há, consequentemente, uma estética política evidente, ontem ainda marcada pelo hieratismo, a elevação, o centro.

IV. Um mundo sem arredores

As actuais propostas de entender a sociedade através de metáforas como rede, fluxos, correntes, paisagem, apontam todos para a globalização do mundo, no sentido de que este já não tenha exterior ou resto. Esta unificação do mundo decorre, quase como um imprevisto, antes de tudo da interdependência de todos, da sobreposição de destinos, da impossibilidade do isolamento. As delimitações espaciais e temporais são actualmente, num mundo em rede, muito problemáticas. Já não é tão fácil utilizar espaços marginais para fugir, ignorar ou externalizar um problema. A construção de limites já não pode ser concebida senão como algo variável, plural, contextual, provisório. Por isso, poder-se-ia dizer o lugar se tornou uma fantasmagoria, povoado por ausentes que tem que ser, ou apelam a ser, tomados em conta. O espaço global é, então, em certo sentido uma grande zona de fronteira.