Está no Palácio Galveias a mostra de fotografias do peruano Roberto Huarcaya, intitulada “Violência subtil”, até ao dia 15 de Janeiro de 2012. Contém trabalhos recentes, de 2009 a 2011. São 28 fotografias de grande formato mais três vídeos, segundo a folha de sala (a minha contagem mental falhou-me nos vídeos, só me lembro de dois).

A instalação favorece um tipo de leitura que parte da sua presença num espaço concreto, de um percurso e uma leitura que daí possa decorrer. É o objectivo deste texto traçar tal percurso e narrativa possível. A instalação das fotografias parece assumir um carácter territorial. O espaço expositivo organiza-se a partir de múltiplos eixos de simetria que relacionam diferentes séries de fotografias um com o outro e constrói, assim, possibilidades de leitura e de confronto entre várias obras.

Roberto Huarcaya, Panorámicas Lima, 2009-2011

A sala circular central oferece duas opções, esquerda ou direita, e ambas levam a um pequeno corredor onde se encontram, respectivamente, duas paisagens panorâmicas: Playa pública – playa privada e Pamplona – Casuarinas. Fazem parte da série “Panorámicas Lima”, e incluem, por tanto, uma dimensão metafórica. Ambas apresentam o território como separação e segregação, e evidenciam como esta separação se inscreve como limite. Limite que, na imagem, também é um espelho invertido – um espelho que mostra as diferenças que são inscritas nas vivências pelo traçar arbitrário de uma fronteira.

Mais paisagens encontram-se numa das salas a que estes corredores dão acesso. São duas séries, “Campos de batalla” e “Paisajes subjetivos”. A primeira mostra uma série de vistas panorâmicas, frequentemente a tender para o idílico, noutros casos para o misterioso. A beleza destas imagens torna-se, no entanto, ambígua quando se percebe os títulos – são nomes dos lugares fotografados e datas de batalhas que aí tiveram lugar. O que vemos são campos de batalha – e não será por acaso que um destes campos é precisamente a praia de Chorrillos de Playa pública – playa privada, onde teve lugar uma batalha em 1881. Outra fotografia mostra um mar abandonado, onde se lutou em 1879. Há ainda campos de 1000 a.C., vários do século XVI, mais alguns do século XIX, XX e ainda o de Bagua, onde em 2009 forças policiais se confrontaram com populações locais, resultando num número desconhecido de mortos.

A intervenção de um olhar torna a memória destas batalhas, e dos seus mortos, palpável. Estes corpos que ficaram, sobretudo, primam pela sua ausência. A medida que olhamos, imaginamos a paisagem povoada de fantasmas.

Roberto Huarcaya, Estación central, 2010

A outra série mostra engenhosas imagens de brinquedos numa praia, de tal forma que assumem a realidade de sonhos. Um comboio a vapor que surge do mar (Estación central), uma caravela (Desembarco), dois esqueletos (Amigos)… A referência ao imaginário sul-americano é mais (a caravela) ou menos (uma lua cheia – Luna llena) evidente. Neste sentido, recorda-se que a paisagem implica um olhar sobre o território (da natureza ou da cidade), é já leitura que encontra camadas subterrâneas de significação e memórias para além da pura presença do visível que a fotografia pretende captar. O que há, nestas paisagens, é precisamente um elemento que torna pública determinadas memórias colectivas.A paisagem é aqui a passagem do tempo e a persistência de fantasmas passados.

Roberto Huarcaya, La nave del Alto Peru, 2010

As imagens não são, portanto, e como o título poderia levar a pensar, representações de violência. A violência está antes presente como marco ou traço que o passado imprimiu sobre a paisagem, ou que a memória lhe adiciona como algo que lhe falta. É sobre a inscrição no mundo do tempo, entendido como violência, que trata a exposição. A subtileza do título é, então, a subtileza de destroços, da ruína. Isto fica clara noutro série, de automóveis destroçados, fotografados primorosamente como se fossem naturezas-mortas.O que fere nestas imagens é uma súbita iluminação: da primeira e descuidada apreciação de formas e cores realizamo-nos de repente que não se trata de imagens abstractas, ou talvez paisagens lunares, senão de cuidadosas fotografias de destroços de carro. O título não é mais do que a indicação da rua onde, por suposto, a foto foi feito. Então evidencia-se o vidro partido, a cadeira vazia do condutor, a profunda marca deixada por um árvore ou uma parede.

Destroços que são, então, vanitas contemporâneas, onde a memória do desastre se imprimiu. A partir daqui torna-se talvez claro que a série mais vistosa, as “Recreaciones pictóricas”, não são nada inocentes, nem tratam simplesmente da história da arte ou da sua apropriação ou citação ou pastiche pós-moderno. Tratam, antes de tudo, de cartografar o imaginário e a memória de um país. Narciso, a burguesia renascentista ou os loucos de Hieronymus Bosch regressam como fantasmas. Trata-se, noutras palavras, de cruzar as palavras do fotógrafo, citadas na folha de sala – que estas obras são “propostas que nos vão dando pistas, informação sobre diversas coordenadas temporais, espaciais e formais, sobre este lentíssimo processo de misturas, desenvolvimento e tensão, de mudanças constantes, que levam o país a transitar, de um modo disperso, para esse propósito de se constituir como nação” – com a curso sangrento e por vezes trágico que este propósito em Peru contemporânea tomou, história parecida a outras naquele continente.

Não se trata, enfim, de sonhos, senão de pesadelos.