Duas gravuras de André Goezu na colecção Gulbenkian
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André Goezu (1939, Antuérpia, Bélgica) nasceu numa família judaica de Antuérpia, em vésperas da Segunda Guerra Mundial. Ao contrário do seu pai, morto em Auschwitz, escapou à perseguição Nazi, vivendo escondido no campo numa família de acolhimento. Nesta altura começou a desenhar, e o mundo simbólico particular que Goezu desenvolverá mais tarde radica nestes anos sombrios da infância. Exemplo é o recorrente motivo da árvore, que tem para ele uma dimensão de enraizamento e proteção.
Tendo estudado na Academia de Belas-Artes da sua cidade natal, recebeu aos 28 anos uma bolsa para ir para Paris, onde vive desde então. Impedido de frequentar a Academia de Paris, fechada no rescaldo das convulsões estudantis de 1968, começou a explorar as técnicas da gravura nos muitos ateliês que existiam na cidade. Desde então, tem vindo a construir um percurso artístico que passa pela gravura, pintura, desenho e ilustração, com uma relação especial à literatura, através de ilustrações de obras da tradição literária francesa e flamenga (Arthur Rimbaud, Emile Verhaeren) e edições de artista. Foi um dos muitos artistas trazidos a Portugal pela Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses, razão da sua presença na coleção do CAM. Artista de pouca projeção em Portugal, o historiador José Augusto-França definiu-o numa rara referência como um “pintor de imagens melancolicamente felizes, feitas de lembranças, como registos de momentos subtilmente fixados, numa gama musical que o próprio artista confessa ser ‘feita de alguns elementos, símbolos pessoais’, cavalos, árvores, corpos em marcha, rostos.” (Colóquio/Artes, n. 55, Dezembro de 1982, p. 76)

As duas obras sem título de André Goezu que fazem parte da coleção moderna do Museu Gulbenkian integram um conjunto de 585 gravuras, adquirido em 1988 à Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses, mais comummente designada por “Gravura.” A “Gravura” foi criada em 1956, recebendo apoios da Fundação Calouste Gulbenkian desde 1959, e desempenhou, durante várias décadas, um papel fulcral na renovação e valorização da gravura em Portugal. Como parte de um esforço de internacionalização da gravura portuguesa, trouxe um número considerável de artistas estrangeiros a Portugal—alguns de grande renome—que trabalharam nas suas oficinas ou frequentaram os seus cursos. A Fundação Gulbenkian teve aqui um papel relevante, oferecendo bolsas para residências de curta duração a muitos deles
André Goezu terá sido um destes artistas, realizando as gravuras pertencentes ao acervo do CAM numa oficina em Novembro de 1977. Este foi um período importante na gravura portuguesa; em 1976, a celebração dos vinte anos de existência da “Gravura” foi pretexto para a realização de múltiplas exposições um pouco por todo o país, que continuaram no ano seguinte.
O próprio Goezu refere que o contacto com a Fundação Gulbenkian e a “Gravura” foi feito através do seu amigo José de Guimarães (nesta altura muito ativo na cooperativa), que conhecera ainda na década de 1960, primeiro na cidade natal do artista, Antuérpia, e mais tarde em Paris, onde se estabeleceu no final desta década.
Relativamente a estas gravuras, feitas a água-tinta e a cores sobre couro, o artista informou o CAM que têm os títulos Chant profond [Canto profundo] e Floraison [Floração], descrevendo-as respetivamente da seguinte forma:
Uma cadeira vazia lembra-se da amada que partiu. Dela permanece a sua voz, cujo som é semelhante ao de uma viola, e a recordação da suavidade da sua pele, parecida com a plumagem de um pássaro.
A natureza refloresce; a árvore renasce, a lagarta torna-se borboleta e a rapariga torna-se mulher.
- Nota
- Este texto é uma versão ligeiramente alterada de textos publicados no site do Museu (aqui, aqui e aqui). Baseia-se num depoimento do artista ao Centro de Arte Moderna em Setembro de 2009; relativamente à atividade da Gravura e à gravura em Portugal pode consultar-se o texto de Inês Vieira Gomes, “Um olhar sobre a gravura do Centro de Arte Moderna”, in 1/150. Gravar e multiplicar, catálogo de exposição, Almada: Casa da Cerca, 2009, p. 29–32.