Texto originalmente publicado na revista Paraquedas, sob pseudonímio de Ernesto de Carvalho.


Qual é a cidade de Charters de Almeida? As seguintes notas propõem alguns pontos de partida para abordar esta pergunta. Partem da exposição Símbolos, vertigens, utopias (Reitoria da Universidade de Lisboa, 11 de Março–30 de Abril de 2013). Tendo por tema principal as “cidades imaginárias”1, que o escultor vai projectando e construindo desde a década de 1980, a exposição apresentava obras em suportes variados: da maqueta e escultura de pequena porte ao desenho e simulação digital.


Como notou José-Augusto França,2 as esculturas de Charters de Almeida estão “prontas para os cataclismos”. É como se já antecipassem a ruína. Por isso não se vinculam nem com o lugar, que não lhes importa, nem com as suas gentes, que à utopia não fazem falta. As portas que fazem a cidade de Charters de Almeida não se destinam a elas. Há antes, diz o historiador, a tarefa de dar o sentido que a cidade não tem. Por isso são essencialmente utópicas—não têm propriamente lugar: estão no que Marc Augé chamou “não-lugares” (rotundas, auto-estradas, interfaces de transporte), ou então na paisagem indistinta, com preferência para o vazio sem fim da água, em frentes de rio ou de mar.

Esta procura, ou até necessidade, de se situar num lugar outro, fora do sentido quotidiano da cidade a que, não obstante, se dirige, nota-se melhor quando a presença da escultura é simulada ou antecipada em maquetas, desenhos ou simulações virtuais. Sobretudo estas últimas enfatizam o ideal do não-lugar a que as esculturas apelam: são paisagens áridas e planas, sem acidentes (árvores ou edifícios), sem gente.

A cidade de Charters de Almeida não é, portanto, a nossa; é, talvez, o futuro (um futuro possível) da nossa cidade, quando nela já não teremos lugar. Ou é, inversamente, vestígio de um tempo ainda por chegar, tempo arcádico onde um prazer bucólico envolve a ausência de esperança.

Charters de Almeida, Cidade Imaginária, 2001

A cidade de Charters de Almeida implica uma vertigem. É isto que sugerem quadros ou montagens com este título, onde pequenas figuras—as mesmas que por vezes visitam as maquetas e nelas se perdem—fitam o abismo que está para lá do quadro. Uma vertigem perante a cidade, território que nos é estranho. Pois a cidade contemporânea, aquela contra a qual Charters de Almeida constrói e à qual procura dar sentido, não tem este sentido por si: é um lugar de abandono, de solidão, lugar sem memória,3 que a escultura deve pontuar a fim de “desestabilizar” a monotonia do percurso urbano, de induzir um choque e assim um pensamento (que poderá ser só um “gosto”/“não gosto”).4

Neste sentido, o imaginário construtivo do escultor—as portas e as passagens das suas cidades imaginárias e silenciosas—opõe-se à cidade quotidiana, é uma gramática de saída ou fuga. Também por isso a necessidade de um vazio dentro da cidade onde esta contra-cidade pode ser erguida, de preferência em sobras de espaço como rotundas ou frentes de água. As esculturas de Charters de Almeida não assimilam bem a diversidade e imprevisibilidade que a realidade das cidades gera. Quando esta se aproxima demasiado vinga-se, envolvendo as obras como mais um signo entre todos os outros.

O imaginário despido, rigorosamente delineado desta cidade imaginada (portas, pilares, colunas, escadas) ergue-se, como se fosse uma acusação, contra o caos e a diversidade do quotidiano. Como tal remetem para uma tradição utópica que, de Leroux a Le Corbusier, procura ordenar a cidade por via da geometria, organizando as massas, os fluxos e, assim, os estímulos e pensamentos.

Charters de Almeida, Porta do Entendimento, 1994

Como qualquer utopia de ordenação e, logo, de controlo do território, a cidade de Charters de Almeida é essencialmente ambígua. Quer ser uma acusação e subversão da rotina, da mecanização dos homens, da sistematização do dia-a-dia, fruto de um juízo sobre a insuficiência da cidade. Mas as referências escultóricas implícitas—a meníres, dólmens, cromeleques—remetem também para um imaginário de falos, túmulos, e eixos de mundos que, uma vez estilhaçado o plano comum em que tal imaginário se enraízava, já não é capaz de agregar um “mundo”, de ordenar uma visão partilhada, de assumir-se como imagem de anseios colectivos. No gesto que antepõe à cidade real a imagem inversa de um poder de ordenação (de um sentido que a cidade não tem) encontra-se implícita a impotência do próprio poder de ordenar. A cidade de Charters de Almeida é a impossibilidade da cidade.


  1. Para a obra do escultor, ver Charters de Almeida visto por Maria João Bahia e Rodrigo Cunha (Lisboa: Círculo de Leitores, 2006), Charters de Almeida. La costruzione della forma tra architettura e scultura, cat. de exposição (Bologna: Compositori, 2004), e o site do artista ↩︎

  2. Em Charters de Almeida visto por Maria João Bahia e Rodrigo Cunha, p. 167–169 ↩︎

  3. Em entrevista de 2004 a Rui Barreiros Duarte, reproduzida em Charters de Almeida visto por Maria João Bahia e Rodrigo Cunha, p. 162 ↩︎

  4. De acordo com o artista, a sua obra procura “propor o reinício de novas correntes do pensamento, questionando, gosto–não gosto, porquê, porquê é que não está, é encarnado, mas por que é encarnado?… Sem querer, estou a reorganizar os estímulos da pessoa num troço do dia e num troço físico que tem de percorrer. Quando a pessoa vai ‘morta’, já nem pensa, passa ali e é como se não passasse.” Em “Conversas com escultores: Charters de Almeida”, entrevista por Eduardo Duarte, ArteTeoria 11 (2008), p. 278. ↩︎