Gerrit Komrij: Uma tradução
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Tradução de um fragmento deste escritor holandês, com nota biográfica final, sob pseudonímio de Frederico Luppe. Originalmente publicado na revista Paraquedas.
Com alguma frequência se ouve o ditado de que a realidade imita a arte. Lá está mais um pedante, penso logo. O pedante surpreende-se ao ver, em frente dos seus olhos, na normalíssima normalidade, uma qualquer fantasia que só conhecia de um romance ou de um quadro. Uma fantasia de preferência algo bizarra ou doentia, que para o pedante mais valia ter ficado na cabeça do artista.
É só imaginação. Algo assim não se imagina.
Algures entre estes dois extremos.
Quem, pedante ou não, não reconhece aquela experiência em que algo na rua subitamente lembra um quadro? Os vapores de Monet, ou os céus de Turner.
Saio pela porta da minha casa, viro à esquerda, tomo o primeiro caminho de terra depois do cemitério, continuo cem metros, e a seguir, em cima de um alto à beira da estrada, viro-me e olho para Vila Pouca. Daquele ponto o Grande Hotel da vila parece tal e qual a Ilha da Morte de Böcklin. É parecido logo ao primeiro olhar, e se olhares bem é-o ainda mais.
A Ilha da Morte de Böcklin é um daqueles quadros que, uma vez vistos, nunca mais se esquece. Já o conhecias, assim parece, antes de o ver. Mas por mais que voltes a vê-lo, continua a ser especial.
O que eu vejo a partir daquele ponto preciso, no alto da berma, é a mesma posição isolada no espaço, a mesma formação de ciprestes, o mesmo volume e as mesmas manchas de sombra. A mesma mistura de formas antigas e ameaça actual. O grupo de ciprestes, desenhado contra o céu como se fosse uma lâmina, dá o golpe final—“aquele buraco negro na composição”.
Desde a primeira vez, não consigo ver este panorama sem pensar no quadro. Sempre que sinto falta de um pouco de deleite estético sou seduzido pela porta, a estrada, o caminho e o alto da berma. Quer queira quer não, algumas vezes por ano tenho que ir lá, àquele lugar de onde o Grande Hotel se assemelha como duas gotas de água à Ilha da Morte de Böcklin.
Sobretudo ao luar é macabro. O que durante o dia, banhado à luz do sol, aqui e acolá ainda poderia parecer idílico subordina-se então definitivamente às exigências da pintura.
O hotel em cima da escura colina sublinha o isolamento da vila, aconchegada aos seus pés. Às vezes vejo toda a colina levantar voo. O conjunto de ciprestes, a fachada e a vila navegam pelo ar, pairando para longe como só uma canhoneira em Jules Verne sabe pairar. Levemente mas ao mesmo tempo majestoso. Vejo-a desaparecer como um castelo do mar.
O vale permanece, abandonado e liso.
Doutras vezes vejo—é como se o quisesse ver—soltar-se uma ilha mais pequena, um pouco mais longe, que acompanha a ilha grande com o Hotel. Na ilha-satélite está a minha casa. Junta-se, entre as duas manchas de sombra flutuantes, de pé num pequeno barco, uma silhueta. É alguém que eu próprio coloquei lá, alguém a quem pus a minha cara e a quem vesti a minha melhor roupa. A distância entre o meu eu de cerimónia e a ilha grande é cada vez mais pequena. Atrás dele a minha casa explode. Milhares de livros voam pelo ar, como estilhaços de uma bomba de fragmentação. De cada livro salta um leque de folhas soltas. O meu eu de cerimónia sente-se feliz.
Depois ele desaparece no buraco negro.
Gerrit Komrij, Vila Pouca. Kroniek van een dorp [Vila Pouca. Crónica de uma aldeia], Amsterdam: De Bezige Bij, 2008, p. 213–215
Acerca de Gerrit Komrij
Gerrit Komrij (1944–2012) foi um poeta e escritor holandês que ganhou fama em finais dos anos 70 como crítico, cronista e polemista. Em finais desta década publicou também a sua primeira antologia da poesia holandesa; esta e outras que se seguiram não só tiveram impacto nos meios especializados como chegaram a um público mais alargado.
Em 1984 mudou-se para Portugal, com o seu companheiro Charles Hofman. A sua vida em Portugal, primeiro em Trás-os-Montes, na vila de Alvites, e a partir de 1988 em Vila Pouca da Beira (perto de Santa Comba Dão), em cujo cemitério é enterrado, foram tema principal de uma crónica semanal que publicou durante anos no diário holandês NRC Handelsblad, com o título “Casa Branca”. Estas crónicas forneceram material para o seu primeiro romance, Over de bergen, de 1990 (há uma tradução de Patrícia Couto, Atrás dos Montes, Asa, 1997), história de um lisboeta que regressa à casa familiar em Trás-os-Montes. Uma selecção das crónicas sobre Trás-os-Montes foi publicada em 1995, traduzido por Fernando Venâncio com o título Um Almoço de Negócios em Sintra (Asa, 1999). Sobre os anos em Vila Pouca publicou em 2008 Vila Pouca. Kroniek van een dorp [Vila Pouca. Crónica de uma aldeia] (2008), de que (ainda) não há tradução portuguesa.
Em língua portuguesa existe ainda uma antologia de poesia de Komrij, com o título Contrabando. Uma antologia poética (Assírio & Alvim, 2005), e uma antologia de poesia neerlandesa por ele organizado, com o título Uma migalha na saia do universo. Antologia da poesia neerlandesa do século vinte (Assírio & Alvim, 1997), ambas traduzidas por Fernando Venâncio. Além disto, Komrij escreveu o libreto para Melodias Estranhas, de António Chaga Rosas, ópera produzido no âmbito do Porto Capital Europeia da Cultura 2001.