No vestíbulo da Galeria Municipal, dois vasos pendurados. Um contém água; o outro terra com uma silva plantada. Circunscrevem o início e o fim da obra: água que dá o barro e a vida, silvas que reclamam de volta à terra todo o labor da nossa mão. Que labor? Aqui, há algo de agarrar o nada do sonho pela mais terrena das artes. Um pequeno pormenor junto de uma das peças insinua-o: um punhado de terra – o vazio da mão fechada – agarrada e atirada ao fogo. É o início da criação, e podemos lê-lo como pedra de toque de uma poética singular e discreto comentário sobre o próprio ofício da cerâmica.

Que se pode ver nesta exposição? Jarros e jarras de barro, pêndulos que lembram o peso do aqui e agora, delicados artefactos apanhadores de sonhos … Sonhos que se aninham nos ramos levados à galeria, deslizam pelos fios e ressoam por vasilhas que são caixas de ressonância. Reverberam entre a brancura do cal e o cheiro da cera, para aterrar junto de uma pedra que bem pode ser o centro do mundo.

O lugar nasce do sonho. Porque ao mesmo tempo esta é uma mostra profundamente pessoal. Regista o diálogo da escultora com um lugar particular e toda a sua densidade, forma de fazê-lo seu e de modelar nele um sonho longamente acarinhado.

Alexandra Gonçalves & Gerbert Verheij