Entra da expoisção ‘Todo o património é poesia,’ no Fórum Eugénio Almeida

Todo o património é poesia? Visto da arte contemporânea a resposta é sim, de acordo com Filipa Oliveira, curadora da exposição com este título que está no Fórum Eugénio Almeida em Évora até ao dia 28 deste mês. Com o título a curadora quis sublinhar como o património é sempre o resultado imprevisível de um olhar sobre o mundo que nos rodeia. Olhar, discurso ou ficção, património é uma noção ambígua, que se alimenta de vestígios de um passado para projectar uma identidade capaz de abranger o presente.

“Não há documento da civilização que não seja ao mesmo tempo um documento da barbárie.” A frase foi escrita pelo filósofo Walter Benjamin em 1940 para assinalar que por detrás de todos os bens culturais há uma história de dominação e despojamento, de vencedores e excluídos. Recorda também que o património se faz dos surpreendentes sobreviventes da destruição, pilhagem, desperdício e esquecimento que faz a maior parte da história.

O discurso patrimonial leva sempre consigo uma larga bagagem de impensado. Não só tudo aquilo que é excluído, mas também os interesses (políticos, económicos, culturais) que orientam a triagem. As obras expostas na exposição, de uma vintena de artistas oriundos um pouco de todo o mundo, tendem sobretudo a percorrer problemáticas como estas. A falsificação, a réplica, a destruição ou a reconstituição, a patrimonialização de memórias pessoais e subjectivas … Boa parte dos gestos de questionamentominam a ideia de autenticidade, central na ideia do património, e a possibilidade de um relato estável, colectivo e partilhado sobre o seu significado.

É um bem-vindo olhar crítico neste 30º aniversário de Évora como Património Mundial. Àqueles que se interessam pela arte contemporânea ou o património recomendo aproveitar estes dias de calor para dar um salto às frescas salas do Fórum Eugénio Almeida. É um privilégio ver em Évora obras de artistas de renome como o chinês Ai Weiwei ou o tailandês Rirkirt Tiravanija, e é admirável o à-vontade com que Filipa Oliveira constrói um relato coerente e estimulante, sem prejudicar o valor singular de cada obra nem sucumbir ao falso problema da “internacionalização” da arte portuguesa.

Fica ainda a pergunta que relato pode dar conta desse património que nos rodeia, que respiramos, e com que recriamos constantemente a nossa identidade comum. A questão é assinalada pela curadora, mas a exposição centra-se mais no questionamento e desconstrução da ideia de património do que na sua construção histórica e nos usos que lhe podemos dar hoje. Haverá práticas artísticas que tenham em conta as armadilhas do discurso patrimonial mas mesmo assim sejam capazes de propor outra ideia de património, de nos ajudar a dar conta da nossa identidade e partilhá-la?


Ver também a crítica de Liz Vahia, na ArteCapital e a reportagem de Mariana Pereira para o DN.