Resistência, de Ana Almeida Pinto
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Dentro da programação da Cidade (Pre)Ocupada, organizada pelas Oficinas do Convento, uma série de exposições vão ocupando a Galeria Municipal. Relatamos aqui as nossas impressões da primeira, Resistência, que entre os dias 15 e 21 de Junho apresentava os resultados da residência da artista portuense Ana Almeida Pinto nas Oficinas.
Na entrada da Galeria umas estranhas e intrigantes formas, como se de folhados de chocolate se tratassem, abriam o apetite. Os folhadinhos mais não são que pedaços de xisto que a artista trouxe dos lados do Porto e expôs a altas temperatura (à volta de 1100º C), nos fornos do Telheiro. A estas temperaturas o xisto expande-se, metamorfoseando-se em flores de pedra, troncos fossilizados, folhados escurecidos ou outras formas que desafiam a nossa imaginação. Se numa fase inicial é a Ana que dita a forma da pedra, as peças finais são fruto de uma boa dose de imprevisibilidade: a constituição da pedra, a presença de grânulos de ferro ou outros vestígios, a posição em que é colocada no forno e a combinação de pressões exercidas… A pedra e o fogo ditam o caminho de uma arte que tem muito de saber dosear o azar.
Mas o xisto do Porto não está só. Esta “matéria invasora” é combinada com o grés branco de Montemor, cuja clareza e depuração contrastam com a exuberância da pedra. O grés pode ser companhia que se repete (nos semicírculos de cor branco e azul, sobre barrinhas de xisto folhado), outras vezes o barro e o xisto moldam-se um ao outro. Há peças que parece que vêm brotando lentamente do chão, refúgio para uma vida antiga; outras erguem-se fortes e robustas sobre finas pernas metálicas. Plantadas no chão, penduradas na parede ou equilibradas sobre esguios suportes, estão aí sem ficha que lhes dê nome e explicação. Assim têm algo da modéstia e reticência das coisas comuns.
Perguntámos à Ana o que é resistir, e ela diz-nos que antes de mais é não desistir, que é preservar a integridade, seguir o sonho, e lutar. E que custa: o fácil é ficar, adormecer e acomodar. Como na resistência ao fogo o barro se torna cerâmica, e o xisto flor, resistir também é mudar. Este mundo mineral que a artista convocou do fogo parece assim, resistente, resiliente e alerto, metamorfose que continua silenciosa e discreta. E perguntamos-nos: Que sopro espera para despertar?
Alexandra Rato, Gerbert Verheij
Uma versão ligeiramente diferente deste texto foi publicado no site das Oficinas do Convento. Ver o portfólio de Ana Almeida Pinto.