Madonas, de Beatriz Manteigas
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Beatriz Manteigas mostra as suas “Madonas” na Galeria Municipal até ao dia 26 de Maio. São sete obras de grande formato, a pastel de óleo sobre tela, mais uma dúzia de desenhos sobre papel de corpos de mulher.
Embora o título remeta para um género tradicional de representação da Virgem Maria, as mulheres bem terrenas de Beatriz Manteigas não precisam de filho (santo ou outro) para reivindicar um lugar na imagem. Basta-lhes a presença segura dos seus corpos. Esta serena auto-suficiência dos modelos explica parte do marcado sabor clássico destas obras, ainda que a pintora não se coíbe do inacabado, do incompleto ou da sobreposição de várias possibilidades de imagem. O desenho ao vivo do corpo nu, ancorado na observação atenta e no conhecimento da anatomia humana, foi tradicionalmente a base da aprendizagem artística, e, apesar de um século de anunciadas mortes, continua bem vivo. O que podemos ver na Galeria Municipal é que a arte do nu – que é também um ofício – persiste e ainda tem algo a dizer. Estes corpos tangíveis e sólidos, fugazes por vezes, que se bastam a si próprio sem disfarces, recordam que não podemos prescindir deles, talvez nem mesmo na arte.
De resto, os trabalhos ainda apresentam claramente a marca da escola – neste caso da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, onde a jovem pintora continua a estudar. Na forma tacteante e íntima da construção plástica – os traços e manchas que se sobrepõem como numa busca de apropriação e casto conhecimento – suspeita-se também da construção, ora tímida, ora audaciosa, de um caminho próprio. A participação nesta partilha descomplexada dos primeiros frutos de uma obra em boa parte por vir constitui outro motivo para uma visita à Galeria Municipal.