Arte contemporânea? Duas exposições e um filme
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O que é a arte contemporânea? Para quem se aventurou ao Cine-Clube no dia 15 de Março “O Quadrado”, do realizador sueco Ruben Östlund, deu uma resposta. O filme traz ao ecrã alguns dias atribulados na vida de um curador de um fictício centro de arte contemporânea sueco. No filme a arte servia de cínico reflexo de uma sociedade cega pelas suas próprias boas intenções, mas estão lá todos os males que se podem associar à etiqueta de “arte contemporânea”: a vacuidade do discurso “profundo”, a ligação pouco salutar ao dinheiro, a cegueira de uma elite que constantemente reivindica preocupações sociais. A arte contemporânea é tudo isto, mas não só, felizmente. E assim temos o mote para falar de duas exposições aqui perto que dão outras versões do que é ou pode ser arte hoje.
A primeira é a exposição “WAH!”, na Fundação Eugénio de Almeida em Évora até 1 de Julho, que mostra obras de 20 mulheres artistas com ligação ao Alentejo. Diz o curador, José Alberto Ferreira, que a intenção foi “colocar no centro do sistema da arte uma das mais periféricas de entre as suas componentes: a criação com assinatura feminina,” a que acrescenta a marginalização cultural a que tantas vezes o Alentejo é sujeita. Por isso o lugar de destaque dado à obra quase esquecida de Estrela Faria (1910-1976), artista nascida em Évora, que assim encabeça postumamente essa confiante demanda de visibilidade que ela não teve em vida: “Nós Estamos Aqui!”, “We Are Here!”, WAH! Mas a exposição foge com sucesso da armadilha fácil de encerrar obras e artistas em identidades demasiada apertadas para elas. Antes mostra a riqueza e diversidade da produção artística de artistas que vivem ou nasceram no Alentejo, posta em diálogo. Uma tertúlia silenciosa. Saliento, por serem de Montemor e não só, as figuras-signos de escura luminosidade por Susana Marques e a austera reflexão em gesso e cerâmica sobre o envelhecimento e o peso do passado por Virgínia Fróis.
Cá em Montemor está patente na Galeria Municipal, até ao dia 28 deste mês, “Entre mãos”, exposição de cerâmica e escultura feita por (ex-)alunos da Faculdade de Belas-Artes em Lisboa. Celebra a relação de longe data entre a Faculdade e Montemor-o-Novo, que ao longo dos anos já trouxe centenas de estudantes às Oficinas do Convento e ao Telheiro para conhecer e trabalhar a cerâmica. Celebra também a variedade das possibilidades que este material versátil oferece à prática artística e de desenho. Os dois curadores, João Rolaça e Marta Castelo, conseguiram imprimir ao conjunto das obras desses jovens artistas e designers uma poética coerente e também didáctica. Porcelana, faiança, barro vermelho ou grés, barbotina, raku e soenga, modelação, moldes e terracota, produzindo formas geométricas ou curvadas, orgânicas ou informes, moldadas, aplanadas, esvaziadas, desfeitas, desmontadas, úteis ou não. Há lagartos e um peixe, vértebras, uma coroa de espinhos, cabeças e troncos, folhas, vasos e ânforas, candeeiros que se fazem garrafas e utensílios que se fazem metáforas, um vídeo e azulejos, e tudo isto em todas as cores que vidrados, engobes e o próprio barro permitem.
Uma sala ainda espera as suas obras, que no fim de semana de 14 e 15 de Abril serão cozidos num forno de grés salgado no Telheiro. Neste forno, único no país, é inserido sal marinho que a altas temperaturas volatiliza e cobre todas as peças com um vidrado verde homogéneo. Quem tiver interesse pode aparecer durante o sábado para assistir.