Texto escrito para a exposição de arte participativa “Mastro do Monte”, que esteve na Biblioteca Maria Lamas, no Monte da Caparica, de 24 de Março a 21 de Abril de 2018. O texto foi impresso num caderno que também incluía o conto “A menina de todas as cores.”

Exposição Mastro do Monte, 2018 Exposição Mastro do Monte, 2018

Exposição Mastro do Monte, 2018. Cartaz da inauguração Exposição Mastro do Monte, 2018

Do início de Abril até ao fim de Maio de 2017, o Salão do Clube Recreativo União Raposense, no Centro Cívico do Monte da Caparica, transformou-se numa oficina de porta aberta: um atelier de cerâmica para “pôr as mãos na massa,” um lugar de encontro, ou um hub criativo, como está na moda dizer, mas aberto e generoso.

Lá dentro, as paredes revestidas a amarelo, coloridas flores de papel no tecto, produções de artistas que por algum tempo encontraram aí abrigo e bandeirinhas de barro, muitas bandeirinhas em todas as cores, feitas por quem, curioso, se aventurava a entrar. E no centro, a Maja a iluminar e a dar sentido àquilo tudo.

Maja Escher, nascida em 1990 no Baixo Alentejo, é artista plástica, formada pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, e já com sólidos passos dados num percurso muito próprio. Foi convidada para participar com o seu projeto no Entrança-Festival Intercultural, que nos dias 27 e 28 de Maio de 2017 trouxe música, dança, teatro, contadores de histórias, oficinas de arte, jogos tradicionais, artesanato, gastronomia e gente ao Parque Urbano do Fróis. O festival foi um dos frutos da vida nova que o Centro Cívico tem vindo a trazer ao Monte da Caparica. A proposta da Maja foi a de abrir um atelier de cerâmica onde todos quantos quisessem poderiam fazer uma ou mais bandeirinhas, que no final enfeitaria o Mastro do Monte, bem no meio do recinto do festival. Quis mesmo abrir o atelier à arte de todos e conseguiu. Durante uma semana andou pelo bairro e pelas hortas a convidar aqueles com quem se cruzava. Vieram também os participantes do programa municipal Férias Jovens, escuteiros, o grupo de cante alentejano, jovens da associação Lifeshaker … A palavra foi passando, e ao todo terão passado umas 300 pessoas pelo atelier – a verdade é que no fervor do momento ninguém fez contas.


O que era a oficina? Era fazer bandeiras: cada participante fazia a sua, recortando no barro uma mensagem: a sua inscrição pessoal, marco para o futuro, que depois ingressaria no todo do mastro. Nas bandeirinhas feitas há por isso de tudo: carros e bicicletas, uma árvore, uma guitarra, peixinhos, corações e estrelas, nuvens e caras, mãos, todo o tipo de amuletos, boa parte do alfabeto, muitos escudinhos e plaquinhas com nomes, e outros signos que só o seu autor saberia decifrar. Todas juntas formam um arquivo de um imaginário comum, de um lugar e a sua gente, prática que antes a artista já utilizara noutras recolhas (de poesia popular, cantos, objetos encontrados).

Cada oficina abria com a leitura do conto “A menina de todas as cores,” escrito pela Ana Escher Rieger, irmã da artista, e incluído neste caderno. Foram os jovens participantes eles próprios que deram este título ao conto, ao pedir ouvi-lo ainda mais uma vez.

Depois da queima das peças realizada no Ar.co de Almada (entidade parceira do projeto) as bandeirinhas eram pintadas, quando possível pelo próprio autor da mensagem. A paleta usada foi inspirada nos pigmentos que pelo Alentejo fora se adicionam à cal para pintar os rodapés das casas: verde pálido, azul do céu, laranja, roxo, castanho, cinzento prateado… Não é difícil ver nelas também as cores com as quais, ao longo do dia, o sol e o Tejo ao fundo vão banhando o Monte da Caparica e os seus bairros – amarelo, cor-de-rosa e branco.

Mas o atelier também era outra coisa: era um abrigo alegre onde o tempo e as preocupações que nos costumam ocupar no dia-a-dia se suspendiam por alguns momentos. Era como entrar num universo ligeiramente diferente do nosso, fruto, dir-se-ia, de um secreto saber de diluir o tempo, de escutar e receber o que o mundo nos traz. E no entanto – a Maja é a primeira a dizê-lo – este pequeno mundo só se tornou tão grande e acolhedor devido a tudo aquilo que todos foram trazendo. Aberta à surpresa do encontro, buscou as senhoras que mantêm viva a tradição de Campo Maior na confecção de flores de papel e convidou-as para trabalharem uns tempos no atelier. Conheceu o artesão Necas, que durante essas semanas construiu lá os seus bonecos de arame. O Ethan veio fazer construções em cana, a artista Ayami produzia saboneteiras, o Bruno ensinava e ensaiava a Dança das Fitas, o Zé trouxe um barco de madeira e o Celso trazia alfaces, hortelã e limões da sua horta. Também havia um canto de leitura, com livros sobre festas, arte popular, pinturas corporais, máscaras e outros temas, convidando os participantes a descobrir mundos novos e diferentes.


E o Mastro? O Mastro é esta densa imagem – árvore-caroço-mundo – que Luís, o protagonista do conto que completa este caderno, dizia ser a possibilidade de uma árvore em que vivemos todos e ninguém fica de fora. É uma imagem que nos interpela, nos convida a nos juntarmos, dançando à sua volta. Mastro que é árvore e abrigo, lugar de encontro, a antiga “Árvore de Maio” de cultos ancestrais, eixo do mundo (esse mundo que construímos no aqui e agora, encontro de que o mastro dá a escala), “lugar-terra” onde talvez reencontremos a nossa fraternidade com as árvores e a terra. Mastro de que pendem centenas de bandeirinhas em cerâmica que, movidas pelo vento, parecem perder a dureza dada pelo fogo, sinos e sinais em terra cozida.

De onde vem essa imagem tão forte, familiar quase, mas ao mesmo tempo tão singular e insólita? A Maja tem vindo a construir mastros desses. Primeiro na Ilha da Culatra (perto de Olhão), onde era um abrigo feito de destroços, conchas e outros materiais recolhidos pela praia. Dava para passar uma noite nele (ela fê-lo). Um segundo Mastro ergue-se em Terena, aldeia no extremo Leste do Alentejo. Os destroços foram substituídos por flores e ervas secas, já pintadas com essa paleta alentejana também utilizada no Monte da Caparica, e o mastro enfeitou a praça central da vila. Seguiu-se outro Mastro em Montemor-o-Novo, realizado durante uma residência nas Oficinas do Convento. Este Mastro entrou definitivamente na dimensão do ritual. Partindo de uma recolha de histórias sobre bandeiras, flores e enfeites de papel, surgiu por alquimia misteriosa esta evidência das bandeirinhas em cerâmica, que também foram o mote para trabalhar com as pessoas que a Maja ia encontrando. A festa-exposição reavivava as antigas Festas de S. Pedro. O Mastro é, enfim, esta imagem onde tudo isto cabe, ritualiza um processo do encontro. E admitindo que o mundo – este em que agora nos toca viver – está como está, é através da arte que, fugazmente, esse mundo-caroço onde todos cabemos, que o Luís sonhou, pode ser entrevisto.


Já no remate do texto, nem vale a pena esclarecer que também eu me rendi aos encantos do Mastro. Pedido este contributo – registo escrito, fóssil do que foi uma experiência vivida e partilhada – quis apanhar a ponta desse entusiasmo e fulgor que é a matéria viva de projetos como estes. No entanto, não queria deixar de juntar também algumas considerações mais gerais que, espero, também registem a importância de olhar e continuar a olhar para o que se passa no Monte da Caparica.

O Mastro vem na sequência de projetos anteriores que de alguma forma lhe prepararam o terreno e fizeram visível a sua necessidade e potencial. São estes o Monumento à Multiculturalidade (2011-2013), processo participativo em que cerca de 70 habitantes do Monte da Caparica construíram juntos as maquetas das três esculturas em ferro espalhadas pelo parque, e o Planisfério da Interculturalidade (2013-2015), projeto educativo de participação voluntária e de coesão social em ambiente escolar que envolveu toda a comunidade escolar do Monte da Caparica e mais que 70 voluntários. Os últimos ajudaram cada um dos mais que 2000 alunos, professores e funcionários a fazer o seu azulejo. O resultado é o painel com a representação do Planeta Terra, ao fundo do parque. Estes projetos implementaram diferentes metodologias para a participação cidadã na criação comum de uma obra de arte pública, a que o Mastro acrescentou ainda outra possibilidade. Este conjunto, único no país e também internacionalmente com poucos pares, faz do Parque Urbano do Fróis um caso de estudo de arte pública com participação cidadã – e que merece continuar a ser estudado.

São projetos que mostram, todos eles à sua maneira, que a arte pode ser, também, um lugar de encontro, e que este encontro pode dar à arte uma renovada vitalidade, leveza e audácia. Sobretudo, pode trazer alegria, quer a lugares que historicamente têm sido arredados de níveis dignos, de bem-estar, quer a cada indivíduo que se envolve, dá e recebe, que se arrisca a mergulhar num processo aberto construído com todos e para todos.