Os problemas do mundo só estarão resolvidos quando todos formos mulatos. E o que isto significa é que quando os Homens se encontrarem como Homens uns com os outros, quando não forem separados por nenhumas barreiras, barreiras de cor, barreiras de crença, enfim todas as barreiras — e não é preciso estar a enumerar pois, conhecemo-las bem demais — isso, essa aproximação, essa espécie de união constante, união dinâmica, união em movimento constante levaria evidentemente a criar o tipo de Homem — que não havendo essas barreiras — seria aquilo que eu chamo, mulato, uma vez que eu não tenho de ser eternamente branco, como não tenho de ser eternamente preto.

Na Caliban, uma entrevista inédita de 1990 a José Saramago durante uma visita a Moçambique, por Calane da Silva.

Reproduzo uma parte que me interessa especialmente sobre a função da crítica:

Encaminhemo-nos para outro assunto relacionado com a problemática dos escritores e a questão da crítica. A crítica, que alguns dizem ser o próprio alter-ego do escritor, estará, no seu ponto de vista, já a entrar em decadência ou não?

Eu não diria que estará a entrar em decadência. Há realmente uma espécie de renúncia à função crítica, mas eu julgo que essa renúncia no campo cultural, no campo literário pode ser também uma manifestação da renúncia do próprio cidadão em participar na vida colectiva. Quer dizer: se o cidadão não critica, se não tem uma atitude crítica em relação à sociedade em que vive, também não se pode esperar que haja um sector em que a crítica se exerce plenamente. Então julgo que essas coisas mesmo que de uma maneira não tão mecânica, como parece que eu estou a dizer, creio que essas coisas, enfim, suponho que estão ligadas.

Mas também existem outros factores que levam a que a crítica hoje seja exercida de uma maneira displicente, de uma maneira meramente judicativa, resumindo tudo, dizer-se se o livro ou a pintura, ou música é bom ou é mau, sem dizer porque é que é bom ou porque é que é mau; e que tem que ver com as próprias condições em que os críticos têm de trabalhar. Se se faz a crítica de um livro, se se pretende fazer a crítica de um livro, a primeira coisa é que o livro tem de ser lido. Segunda coisa, tem de se pensar sobre esse livro, tem de se reflectir sobre o livro. Tem, provavelmente, de se se ligar, de se fazer leituras de outras obras do mesmo autor para se ver até que ponto, enfim, que lugar ocupa esse livro no conjunto da obra do autor. Tudo isso já levou provavelmente uma semana ou duas e depois tem se escrever a crítica. E a crítica não pode ser feita em cima do joelho.

O que eu quero dizer com isso é que provavelmente ao fim de um mês o crítico tem a crítica para entregar no jornal, na revista, ou onde quer que seja e depois vai ter de dizer assim: agora paguem-me a crítica que eu fiz com o qual gastei quinze dias ou três semanas, ou um mês, mas paguem de forma a que possa ter plena responsabilidade pelo trabalho que fiz. É evidente que o chefe de redacção do jornal ou revista vai dizer: você é doido! Escreva-me aí meia dúzia de linhas para que eu possa meter na revista uma meia página onde vai dizer se este livro é genial — em geral não é — ou se este livro é para deitar fora, e não quero mais nada! Ora, sendo assim, é muito difícil aquela crítica. Note! Não quer dizer que não haja, que não continue a haver crítica que se publica nas revistas especializadas que tem outro nível, enfim, tudo o mais. Mas a crítica de que estou a falar neste momento, que é a crítica de informação do público, é ao público que, verdadeiramente, deveria interessar a crítica, não é ao autor.

Eu não acho que o crítico seja alter-ego do autor, o autor é o mais cego que pode existir em relação à sua própria obra, portanto, não é ao autor que a crítica interessa — o autor ficará muito satisfeito se o crítico disser que o livro dele é bom, mas se disser que o livro não é bom o autor faz de conta que não leu e segue em frente no seu próprio caminho. Agora quem a crítica interessa é ao leitor. O leitor é que deve ser orientado não no sentido de que é levado pela mão, mas orientado com informação; precisa de saber, precisa de confrontar o seu próprio juízo que ele já fez ou vai fazer após a leitura do livro, com o juízo de outra pessoa que, enfim, tem um certo grau de especialização sobre aquela matéria. Isso, sim é útil e é isso que está em crise.