Uma bonita instalação de Ernesto Neto na Blueproject Foundation, em Barcelona, espécie de peixe expandido e imersível, com penetrante cheiro a cravo.

Ernesto Neto, Um dia todos fomos peixes

Ernesto Neto (1964), diz nos a net, é um dos mais relevantes artistas braseileiros, com exposições nos principais museus do mundo e representações nacionais nos bienais de São Paulo, Sidney e Veneza. Salvo erro, a sua obra nunca foi exposta em Portugal. Traduzo o texto que o artista escreveu para a exposição de volta ao português:

Um ovo, uma terra, terra ovo, terra mãe, enquanto nos envolvemos com as políticas do dia-a-dia, os passarinhos voam pelo ar, os peixes nadam no largo mar, o velho oceano, estamos sempre a navegar o nobre oceano de onde veio a vida, um horizonte inalcançavel espera-nos no infinito, água ar, água ar, num contínuo vai-vem, um respirar eterno, água ar água ar, vertido em azul; de onde vem este azul? de onde vem este blue? água ar, no silêncio me pergunto, no silêncio me conecto, pés na terra, cabeça no ar, coração a meio do caminho. Centro de equilíbrio, de força e verdade, a mente mente, o coração não mente, conectado entre céu e mar, recebo a cura e as aprendizagens dos nossos peixes ancestrais que um dia fomos, flutuando no mar, os cristais que nos purificam e re-equilibram o nosso corpo, a nossa continuidade entre céu e terra. Diante do cyber-gritaria do dia-a-dia, do tempo arrancado às nossas vidas, é bom fazer silêncio, respirar, sentir o nosso entorno, o ritmo sereno do aqui e agora; quando paramos o mundo gira e ao girar temos um ritmo, uma cadência, um movimento orgânico que nos traz sabedoria, uma sabedoria não racional, uma sabedoria espiritual, esta é a dimensão perdida, o vínculo perdido ao eterno retorno, ao Ouroboros, ao sentimento do infinito dentro de nós mesmos, o encontro do todo com as suas partes, mais além do estado dialético da linguagem e as suas limitações para abordar a magia da arte. Arte água arte ar arte. Dentro do peixe, sonhos ancestrais, dentro do peixe relaxo-me e sinto, não penso, só sinto, o ar, a água, o tempo, sinto dentro de mim toda uma eternidade, sinto os meus poros respriando, sinto a vida, a terra, o oceano, obscuro, misterioso e terno, molhado e infinto, um oceano dentro outro fora, sinto os meus dedos, sinto o tamborilar do croché, sinto-me eu mesmo e aos outros, sinto-me outro eu, sinto a fala, sinto uma canção perdida, encontro, sinto o sal na língua, que língua falamos peixe, eterno terno peixe, ensina-nos peixe, peixes, peixe nadando, nada peixe, obrigado peixe, um dia todos fomos peixes.