Da Virreina, Centro da Imagem em Barcelona, uma exposição on-line sobre a relação entre cidade e cinema desde a antropologia urbana: Malas Calles. As obras foram selecionadas do arquivo da Hamaca, uma distribuidora espanhola de media e vídeo arte. O objectivo foi o de lançar, através dos vídeos apresentados, um olhar crítico sobre conceitos como “espaço urbano” e “espaço público,” entendido como essencial “no solo para entender el tipo de urbanismo que caracteriza la ciudad contemporánea y en el cual nos encontramos … inevitablemente sumergidos, sino también para devolver a las malas calles [uma referência a Mean Streets de Martin Scorsese] el protagonismo que se merecen.”

Obras que podem ser vistas na página:

  1. Cada día paso por aquí (Raúl Arroyo)
  2. Caso público: Zona azul (Diana Larrea)
  3. Caso público: Intrusos (Diana Larrea)
  4. Durch / A través (Carlos TMori)
  5. El fin de las palabras (Raúl Bajo)
  6. Kc#3: Digital (León Siminiani)
  7. La lucha por el espacio urbano (Jacobo Sucari)
  8. Los Sures (Toni Serra | Abu Ali)
  9. Paseo nocturno (Andreas Wutz)
  10. Reina 135 (Pedro Ortuño)
  11. Retorno (Bienvenidos al nuevo paraíso) (Itziar Barrio)
  12. Soy de la gran ciudad (Raúl Bajo)
  13. V-2 (Eugeni Bonet)
  14. Vecinos (León Siminiani)

Também na Virreina uma apresentação do projecto “Barcelona vista del Besòs." O Besòs é o rio que limita a planície onde se situa a cidade à norte, zona tradicionalmente industrial e operária que desde os Jogos Olímpicos de 1992, e sobretudo já no nosso milénio, tem conhecido profundas mudanças. O projecto, colaboração entre o geógrafo Joan Roca e o fotógrafo Patrick Faigenbaum de 1999 a 2007, buscou traçar o retrato de todas estas mudanças, com a ideia de que este lugar periférico era um ponto privilegiado desde onde olhar as mudanças da cidade como um todo. Ademais, o projecto esteve estreitamente ligado às reindivicações de movimentos sociais locais que contestavam as políticas municipais para aquela área.

As fotos de Faigenbaum encontram-se em inúmeras publicações tanto sobre o Besòs e Barcelona em geral, e ver tudo dentro do conjunto só por isso vale a pena.

A documentação fotográfica das alterações urbanas tem uma digna tradição em Barcelona. Actualmente, no Arxiu Fotogràfic municipal da cidade há, por exemplo, um sucedâneo do projecto de Roca e Faigenbaum. “Darius Koehli. Inside Poblenou” (até 19 de Maio), é um trabalho sobre a transformação de Poblenou entre 2005 e 2017 pelo fotógrafo suiço, encomendado pelo arquivo. Pessoalmente, as fotografias não me chamaram muito a atenção, mas fiquei a pensar no tema, também por causa do texto de parede que resumia a relação quase simbiótica entre fotografia e modernidade urbana (e quem diz fotografia diz cinema), e que reproduzo abaixo. Lembrei-me de uma grande exposição de 2014, “Jo faig el carrer," sobre a fotografia de rua de Joan Colom, no MNAC, ou exposições da obra de Xavier Miserachs e Manolo Laguillo no MACBA, e no mesmo museu o trabalho de Jorge Ribalta. Obviamente, a exposição “Archivo Unversal”, que depois viajou ao CCB (recordar aqui e aqui). Ou ainda Francesc Català-Roca, visto, creio, em Madrid.

Alguma bibliografia:

Barcelona. La metrópolis en la era de la fotografía, 1860-2004 Imatges metropolitanes de la nova Barcelona Arquivo Universal Fotos y libros. España 1905-1977

Antes de traduzir o texto prometido, a nota óbvia. Faz falta mais trabalho neste sentido em Lisboa, sobretudo pensar o arquivo fotográfico da cidade desde a actualidade. (E uma segunda nota: não consegui ler tudo isto na exposição em questão, o que me interessa é o programa, que não ficaria nada mal numa Lisboa em acelarada transformação.)

Desde a invenção da fotografia nunca se deixou de representar a cidade, ao ponto de nos ser impossível de imaginar a existência de uma sem a outra [cidade e fotografia, portanto]. Se a cidade é o lugar onde se regenera a modernidade, o registo fotográfico é, ao mesmo tempo, testemunho e sintoma daquilo que entendemos por moderno. Esta fotografia [refere-se a Les Glòries de Francesc Català-Roca] ilumina o passado histórico porque o olhar do seu autor nasce da vivência intensa da contemporaneidade.

… As fotografias da exposição [de Darius Koehli] mostram que os processos na cidade nunca são abruptos nem uniformes e que sempre convivem diferentes maneiras de entender as relações sociais, o lazer e o trabalho, mas também o tempo e o espaço. A presença de fotografias históricas do fundo [do Arxiu Fotogràfic de Barcelona] reforça a relação dialéctica entre o presente e aquilo que foi e, no conjunto, a exposição recolhe uma constelação de imagens que evita o relato linear com o objectivo de favorecer a percepção de uma complexidade que se origina em muitos relatos que se justapõem.