Lisboa cresceu em mancha de óleo?
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Na Estudo Prévio, revista do Centro de Estudos de Arquitectura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa, um muito interessante texto do arquitecto João Caria Lopes que questiona a leitura do crescimento de Lisboa através do modelo da “mancha de óleo”.
O crescimento de Lisboa é muitas vezes lida através desta metáfora, que creio foi primeiro usada por Fialho de Almeida.
Eu próprio escrevi algo neste sentido na minha tese (p. 149):
The city grew by ways of assemblage, addition, agglomeration, superimposition. Rather than orderly adding urbanized areas to the existing city, it resulted in a patchwork of different kind of urban and rural tissues, composing what V. M. Ferreira called – appropriating a metaphor from Fialho de Almeida – a territory after the image of an oil stain (mancha d’oleo). [A referência a Ferreira é a “Modos e caminhos da urbanização de Lisboa: A cidade e a aglomeração de Lisboa, 1890-1940,” em Ler História 7, 1986.]
Lopes revê e critica esta “imagem-conceito,” cuja primeira utilização enquanto modelo interpretativa encontra na obra de José-Augusto França. Põe em causa esta ideia da cidade que se transborda a si pŕoprio, vazando pela sua periferia rural, desde logo através da simples constatação demográfica de só uma pequena parte do crescimento da periferia lisboeta (a actual Área Metropolitana de Lisboa) se explica pela saída do “centro” (Lisboa cidade). Argumenta que esta imagem de facto torna a realidade metropolitana lisboeta menos legível e intelígivel, nomeadamente pela desvalorização da periferia, associada a caracterizações depreciativas (“fragmentado,” “difuso,” “expansivo”…). (E, já que estou nas referências à minha tese, vejo aí um movimento paralelo com o que eu próprio tentei, que é o de ver os juízos sobre o urbano enquanto construção social historicamente situada, que resulta de certas leituras da cidade e que depois estabelece directrizes para a intervenção urbanística e de desenho sobre o território urbano.)
Do artigo:
Ao rever o crescimento da metrópole, não como uma expansão centrífuga da Lisboa-cidade mas como uma série de expansões e conurbações de povoamentos periféricos, distribuídos ao longo das principais infraestruturas viárias, compreendemos a génese do território urbano atual e tornamo-nos capazes de criar novas imagens-conceito – desta vez legíveis e inteligíveis. Essa alteração na leitura do território tem o potencial para renovar todo o discurso científico e político gerado através dela e torna-se relevante para informar futuros planos de ordenamento ou de projetos de qualquer tipo de intervenção territorial.
Para esta releitura, Lopes tem em mente as muitas reflexões que, na bibliografia internacional, têm proposto diferentes modelos interpretativos para entender as dinâmicas metropolitanas. Mas recorre sobretudo a estudos recentes da realidade portuguesa, entre outros o estimulante trabalho de Álvaro Domingues (A rua da estrada, 2009), e as novas perspectivas de análise urbana trazidas por novas abordagens tecnológicas.
A partir da leitura crítica do estado de arte sobre a metropolização de Lisboa pode ser entendido que só muito recentemente, na transição de séculos, conseguiu-se ter o afastamento necessário para começar a reler os territórios urbanizados durante a segunda metade do século XX e através dessas releituras começa-se, agora, a descodificar a aparente complexidade do movimento acelerado entre populações e construções que constituíram a metrópole de Lisboa.
As “imagens-conceitos” que propõe em alternativa à “mancha de óleo”: o rosário (imagem resgatada do Plano Director da Região de Lisboa dos anos 1960) e a membrana (apropriada de Álvaro Domingues
Cita para o efeito João Pedro Silva Nunes:
Se como atrás se viu, Lisboa se apresentava na época como uma cidade na forma de dedos de luva, crescendo ao longo das linhas de transporte coletivo e na sua proximidade, os seus povoados suburbanos dispostos ao longo da Linha de Sintra aproximavam-se mais da figura de um rosário de núcleos residenciais e industriais sobre um fundo de campos agrícolas – na expressão sagaz dos autores da memória descritiva do Plano Director da região de Lisboa.
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Enquanto ao período que a mim mais me tem ocupado (finais do século XIX até meados do século XX), seria interessante confrontar esta leitura de João Caria Lopes com a obra clássica de Vítor Matias Ferreira, A cidade de Lisboa: De capital do império a centro da metrópole (D. Quixote, 1987). Ferreira caracterizou o crescimento urbano no período entre as décadas de 1880 e 1930 através de dois movimentos contraditórios mas complementares, um centrípeto (de atracção do centro da cidade), outro centrífugo (dispersão pela periferia, criando um contínuo urbano-rural).