A última paixão de Fernando Pessoa, por José Barreto

Um ensaio de José Barreto sobre o que pode ter sido a última paixão, e o último poema, de Fernando Pessoa. O texto trata do que o título promete (uma possível última paixão de Fernando Pessoa pela Madge Anderson), e também de algo mais. No estranho universo pessoano faz sentido que a tal Madge Anderson, irmã da cunhada do poeta, parece ter tido os serviços secretos ingleses por empregador. Há um pormenor que seria ao gosto de Roberto Bolaño: ela casou-se, já em 1939, com Frederick William Winterbotham, chefe da Air Section do Secret Intelligence Service entre 1929 e 1945, que foi precisamente o autor do na altura famoso livro The Ultra Secret (1974), que deu pela primeira vez a conhecer a secreta história da decriptação durante a Segunda Guerra Mundial (nomeadamente da Enigma), onde Madge Anderson também terá trabalhado.

Malas Calles, uma exposição on-line da Virreina

Da Virreina, Centro da Imagem em Barcelona, uma exposição on-line sobre a relação entre cidade e cinema desde a antropologia urbana: Malas Calles. As obras foram selecionadas do arquivo da Hamaca, uma distribuidora espanhola de media e vídeo arte. O objectivo foi o de lançar, através dos vídeos apresentados, um olhar crítico sobre conceitos como “espaço urbano” e “espaço público,” entendido como essencial “no solo para entender el tipo de urbanismo que caracteriza la ciudad contemporánea y en el cual nos encontramos … inevitablemente sumergidos, sino también para devolver a las malas calles [uma referência a Mean Streets de Martin Scorsese] el protagonismo que se merecen.”

Ponto de situação da Re.vis.ta

Ainda do ano passado, um historial e ponto da situação da Re.vis.ta pelas suas editoras, Flávia Violante e Rita Salgueiro, em que também tenho o prazer de colaborar como autor. Falam das razões que as levou a criar primeiro a Revista 4 e depois a Re.vis.ta. Muito interessante o panorama sobre a actualidade da edição de revistas de arte e do espaço da crítica, já no final do texto.

Exposição de Valter Ventura no Arquivo Fotográfico

No Arquivo Municipal, a exposição compêndio de observações fotográficas - luz e cegueira de Valter Ventura (até 21/4). Começa com o flash: a luz que permite a fotografia (luz que grava a imagem). Mas é também uma explosão, que em excesso cega ou pior. No limite, mata, e este limiar está lá: duas imagens do negativo produzido pelo clarão da bomba de Hiroshima, tão forte que gravou o contorno de qualquer obstáculo na pedra da calçada ou das paredes. Nestas duas imagens, os obstáculos desenharam-se com nitidez: um homem de bengala, outra figura apoiada a uma escada. Há um discurso surdo sobre a imagem, a luz e a violência que se dá dentro do trabalho de imagens, e que a mim me intrigou.

Falta dizer que Valter Ventura trabalhou com imagens de arquivos, além de fotografias suas.

Os problemas do mundo só estarão resolvidos quando todos formos mulatos

Os problemas do mundo só estarão resolvidos quando todos formos mulatos. E o que isto significa é que quando os Homens se encontrarem como Homens uns com os outros, quando não forem separados por nenhumas barreiras, barreiras de cor, barreiras de crença, enfim todas as barreiras — e não é preciso estar a enumerar pois, conhecemo-las bem demais — isso, essa aproximação, essa espécie de união constante, união dinâmica, união em movimento constante levaria evidentemente a criar o tipo de Homem — que não havendo essas barreiras — seria aquilo que eu chamo, mulato, uma vez que eu não tenho de ser eternamente branco, como não tenho de ser eternamente preto.

Na Caliban, uma entrevista inédita de 1990 a José Saramago durante uma visita a Moçambique, por Calane da Silva.